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God morning Madeira

Depois de uma noite mal dormida,não sei se por estranhar o colchão se por pura ansiedade, mergulho agora no meu diário de bordo. Notas apontadas, coordenadas tiradas, parto hoje para a descoberta da ilha, qual João Gonçalves Zarco ou Tristão Vaz Teixeira, frente ao desconhecido. Tal como eles, na imensidão do oceano... Encontro-me eu... na imensidão da ilha... Que rumo tomar? Norte?Sul? Preparo o equipamento, quase tão incipiente quanto o astrolábio, sim que o único mapa a funcionar na Madeira é o NDrive, e o meu parece ser do tempo do arroz de quinze, só conhece a marina do Funchal, posso-me perder sem medo, pois venho sempre parar à Marina pra ver os barquinhos...

Contando o primeiro conto, mas não o primeiro quilómetro

Diz a lenda que, entre o final do século XIV e o início do século XV, Roberto Machim, um inglês de classe-média, apaixonou-se por Ana D’Arfet, uma linda rapariga de classe-alta da aristocracia. A familia dela tinha o seu orgulho e eram contra que este romance continuasse. Assim sendo forçaram-na a casar com um nobre de classe-alta, de quem esta não gostava, e mandaram ao Rei uma fiança para manter Machim preso até o casamento se realizar. Ana casou com o nobre e foi levada para um castelo em Bristol. Machim com a ajuda de alguns amigos, foi até Bristol, andando um dos seus companheiros entrar no castelo para dizer a Ana que Roberto continuava a amá-la, assim como tinha um plano para fugirem.
Assim deixaram Bristol em direcção a França. Mas uma forte tempestade arrastou-os para o oceano, afastando-os de França. No 14º dia eles chegaram à Ilha da Madeira, onde desembarcaram numa linda baía (Machico). Ana estava doente, morrendo nos braços do seu amado e enterrada por baixo de uma grande e linda árvore, onde foi colocada uma cruz de madeira de cedro.
Machim morreu alguns dias depois, sendo enterrado na mesma sepultura da sua amada. Uma inscriçao foi deixada perto, ditada por Machim, contando a triste história e pedindo que se algum futuro colonizador ali chegasse, que construisse uma igreja naquele local, hoje essa edificação é conhecida como a Capela do Senhor dos Milagres”.
E assim nasce a ilha da Madeira, considerada por muitos como a pérola do atlântico, aqui onde a europa se funde com os trópicos, é destino de muitas viagens e aventuras. A minha começa agora. Depois de muito sonhar com ela, a tão ansiada viagem começa a revelar contornos. Já se pesquisa do google, viaja por entre relatos de outros bloggers, contacta-se associações de compadres caminheiros e já se delinea o diário de bordo:

O início da viagem

"A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o visitante sentou na areia da praia e disse: “Não há mais o que ver”, saiba que não era assim. O fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite, com o sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para repetir e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre."
José Saramago

Este é o início de uma viagem, um desafio lançado no calor da lareira e ao sabor da minha tão apreciada ginjinha, cujo restinho, trazido das aldeias históricas, foi guardado religiosamente para acalentar uma fria noite de inverno. Esperei o outono, esperei o inverno (estamos em março e nem sinal da tão abençoada chuvinha), esperei, desesperei, e foi numa noite de frio assim assim, que aceitei degustar o escasso néctar e o desafio de ir aqui escrevendo os meus diários de bordo que vou fazendo sempre que tenho a oportunidade de viajar.